the heart companion

- shall we never sink alone -

não estamos no facebook. nem no linkedin. nem no hi5. nem no twitter. nem no messenger. nem no livelink. estamos aqui e ali ao lado, naquela banquinha a que um dia chamaram vida. mas temos e.mail: theheartcompanion@hotmail.com somos moderadamente modernos.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

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the heart companion

27.05.2009 - 27.05.2010



que a vida é imprestável e a poesia para nada serve, já ambos o sabíamos.
conhecíamos de cor os fados todos - à cabeça, os mais sombrios -
e Fátima ficara lá para trás, havia já muito tempo.
agarrados ao futebol e á língua franca em que agora escrevinhamos
estes versos - torpes, brancos-detergente, pobres -
nada nos preparara, contudo, para essa quase noite de cinzas.
de um lado, a poderosa armada britânica, ostentando o título
(todos os títulos passados e futuros - 'in my dreams' - e mais alguns);
do outro, a esquadra 'contender', capitaneada por um rapaz baixo,
promitente herdeiro alvi-celeste dessoutro deus, Dieguito de seu nome.
sentados desajeitadamente no sofá, a luz da tarde a esvair-se,

misturávamos Português, Inglês e Alemão, numa cacofonia irrepreensível
(semiótica pura e sinal dos tempos - Erasmus na Torre de Babel).
na televisão, o nosso príncipe quase perfeito afundava-se,
com aquele espanto próprio dos que se julgam omnipotentes
- o príncipe e toda a sua ínclita e mui britânica geração.
disfarçavas, amigo meu, o melhor que sabias, o melhor que podias,
o abismo que me abraçava, os fantasmas nas vidraças, os abutres à espreita.
por entre minis mal bebidas, o sabor amargo das minhas lágrimas
era já, como dizer, o tom dominante, anunciando impiedosamente
mais uma balada triste, daquelas onde se misturam enxofre, melancolia,
um eterno desespero, todo o desamor do mundo.
noventa minutos, sem direito a prolongamento ou penalties,
uma derrota sem redenção (se fora boxe, dir-se-ia por knock-out),
a súbita máscara da dor, irmanando, em cores baças,
aqueles onze guerreiros do apocalipse moderno, em calções,
tu, meu amigo, fazendo das tripas coração por mim (eu sei que sim),
e eu, perdido em campo, perdida mais uma vez a vida feliz,
chorando a distância obscena que vai das honrarias ferrugentas
ao ferrete interno de nos saber eternos 'has been'.
morreste-me durante uma partida de futebol, meu amor.

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1 ano.
tudo começou 'aqui', tudo terminará 'aqui'.
agora é seguir viagem.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

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foto: abbas kiarostami

dear reader,

this blog is entering what it will probably become its last week on-air. nothing much will be lost, nothing much will change. only the calendar we will start using will assume a different, still heart-shapped, format.

one year is one year.

dei-te-me-nos um ano da minha vida e um ano é de valor, diria provavelmente o senhor bernardo fachada, numa das suas superlativas cantigas de amigo.

ou, parafraseando os feromona, mais uns rapazitos do roque enrole luso, "isto não é hollywood, bébé!". ah, pois não. basta atentar nas palavras do senhor al berto, ali mais em baixo.

dear reader,

this has been the diary of a bad year. a f****** bad year.

last week, possibly. a long lasting kind of farewell.

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as palavras são de al berto. o resto é 'meu'.

nostalgia of the girls
sex landscape
nostalgia of the girls
sex landscape
and the beat goes on
and the beat goes on
so kind baby so kind
baby

quinta-feira, 20 de maio de 2010

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porque não uns jogos olímpicos para os 10.000 corações-barreiras, a maratona existencial, um qualquer salto à vara com arame farpado a servir de nivelador, eu sei lá que mais. ou então uns campeonatos mundiais indoor, para sujeitos com propensão para atalhos esquinados, estranhas veredas, caminhos imprescrutáveis? ou ainda um masters, como no ténis, para os mestres do desalento, do desafecto, da desalegria? já agora, uma moderna acrópole onde todos os declamadores ridículos da sua própria pobre gesta pudessem fazer uma jam session, espantando ao vento todas as rugas do corpo, todos os espinho do ceptro? nunca visto: o ouro olímpico, o título mundial, indoor e outdoor, o campeonato europeu, melhor marca de todos os tempos - ali, aqui, reunidos. orgulhosamente sós. honra aos vencedores, dignidade aos vencidos? deixem-me rir. honra aos que passam ao lado de tão lúgrubes desportos; dignidade piedosa aos tristes e involuntários vencedores. a vida, pois claro. com quatro letrinhas apenas se brinca à melancolia. com outras quatro.. e viver, para quando? grande pergunta. vou arejar. e o ponteiro sempre pé a fundo - tic tac tic tac tic tac tic tac. whatever, buddies. longas são as noites, esquinados são os dias. mas isso, como dizer, já lá estava, em letrinhas pequeninas, no grande contrato que os demiurgos nos colocaram à frente. assinar de cruz. se necessário, com procuração paternal. here we are, mais alto, mais forte, mais longe. ou ao contrário. whatever makes you happy, my dear reader.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

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perante as dificuldades, só te peço uma coisa: "be inspired".
- disse ele, afastando-se do matinal espelho.

terça-feira, 18 de maio de 2010

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cada tiro, cada melro.
puxa vida, que isto não é moleza, seu moleque.

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he who seeks does not find, but he who does not seek will be found.

franz kafka

domingo, 16 de maio de 2010

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[repara: este imenso adeus, como nos livros de chandler, tem em si uma coisa bonita e generosa: aqui e ali, ali e aqui, deixo-te um conjunto de palavras incendiárias, e incendiadas: uma herança afectiva, preciosa, para que, também tu que me lês, possas retirar do deserto alheio o seu sumo mais sagrado: repara neste imenso adeus, com olhos humildes: só assim poderás aprender com a dor e a glória alheia, mais do que fruir da palavra pela palavra - o que seria porventura prazeiroso, mas estéril: glória e eternidade ao amor, pelos séculos dos séculos? então: tens que aprender, como eu tive que aprender, the harder it takes, the better it gets, my dear reader: código de aprendizagem do amor do século XXI, mas não o amor em si: esse, é como a chuva que aquece, o frio que queima, a palavra que se sente: repara, um milagre, repara: outra coisa não é o amor. vai-te a ele. vai-te agora.]


Código de Amor do século XII


I

A alegação do casamento não é desculpa legítima contra o amor.

II

Quem não sabe esconder não sabe amar.

III

Ninguém se pode dar a dois amores.

IV

O amor pode sempre crescer ou diminuir.

V

O que o amante arranca pela força ao outro amante não tem sabor.

VI

O homem não ama, normalmente, senão em plena puberdade.

VII

Prescreve-se a um dos amantes, por morte do outro, um luto de dois anos.

VIII

Ninguém, em amor, deve ser privado do seu direito sem uma razão mais que suficiente.

IX

Ninguém pode amar se não estiver imbuído da persuasão de amor (da esperança de ser amado).

X

O amor, habitualmente, é expulso de casa pela avareza.

XI

Não é conveniente amar aquela a quem se teria vergonha de desejar em casamento.

XII

O amor verdadeiro não tem desejo de carícias, a não ser que venham daquela a quem ama.

XIII

Amor divulgado raramente dura.

XIV

O êxito demasiado fácil não tarda a tirar o seu encanto ao amor; os obstáculos aumentam-lhe o preço.

XV

Toda a pessoa que ama empalidece ao ver quem ama.

XVI

Ao ver-se imprevistamente aquele a quem se ama, estremece-se.

XVII

Novo amor expulsa o antigo.

XVIII

Só o mérito torna digno de amor.

XIX

O amor que se extingue decai rapidamente e raramente se reanima.

XX

O apaixonado está sempre receoso.

XXI

A afeição de amor cresce sempre com os ciúmes verdadeiros.

XXII

A afeição de amor cresce com a suspeita e com os ciúmes que derivam dela.

XXIII

Menor dorme e menos come aquele a quem atormenta um pensar de amor.

XXIV

Todas as acções do amante terminam pensando no que ama.

XXV

O amor verdadeiro não acha bem senão o que sabe que agrada a quem ama.

XXVI

O amor não pode recusar nada ao amor.

XXVII

O amante não pode saciar-se de fruir do que ama.

XXVIII

Uma fraca presunção faz com que o amante suspeite coisas sinistras em quem ama.

XXIX

O excessivo hábito dos prazeres impede o nascimento do amor.

XXX

Uma pessoa que ama está ocupada assídua e ininterruptamente pela imagem de quem ama.

XXXI

Nada impede que uma mulher seja amada por dois homens, e um homem por duas mulheres.


André, capelão francês do séc. XII, citado por Stendhal ("Do Amor")

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cat people

curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar -
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
a isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.

margarida vale de gato

sábado, 15 de maio de 2010

quinta-feira, 13 de maio de 2010

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'tempos modernos', de charlie chaplin

quarta-feira, 12 de maio de 2010

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querida júlia stop

é quase manhã stop

é só, por ora, stop

e é justo saberes stop

arturo bandini, de certa maneira stop

segunda-feira, 10 de maio de 2010

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i carry your heart with me

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart (i carry it in my heart)

e.e.cummings

sábado, 8 de maio de 2010

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metade da minha vida, bebi, escrevi, amei, fiz asneiras. a outra metade desperdicei-a.

é o amor que mata. só pode. venha, venha.

escreve o grande miguel esteves cardoso, no 'público', de ontem, sexta-feira.


por isso, há badamecos nas letras. e há o MEC.

uns fazem o gmat, a ver se se safam na vida. outros fazem o gi-mec, a ver se se fazem à vida.

é o amor que mata. só pode. venha, venha, VENHA, VENHA.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

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on connait la chanson.
é sempre a mesma e é sempre velha, mesmo quando é nova..

terça-feira, 4 de maio de 2010

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penélope escreve

é mais que certo: não sinto a tua falta.
fiquei a tarde toda a arrumar os teus papéis,
a reler as cinco cartas que me foste endereçando
na semana que perdemos: tu no alentejo,
eu debaixo de água. fui depois regar as rosas
que deixaste no quintal. sempre só e sem
carpir o meu estado (porque não me fazes falta),
pus o disco da chavela que me deste no natal
e comecei a preparar o teu prato preferido.
cozinhar fez-me perder o apetite; por isso
abri uma garrafa de maduro e não me custa
confessar-te que não sinto a tua falta.
por volta das dez horas, obriguei-me a recusar
dois convites pra sair (aleguei androfobia)
e estou neste momento a recortar a tua imagem
(não me fazes falta) nas fotos que possuo de nós dois,
de maneira a castigar com o cesto dos papéis
a inábil idiota que deixou que tu te fosses.

josé miguel silva

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com o contador descendente já em acção, parece-me que este espaço de reflexão ensimesmada é bem capaz de estar a dar as últimas. veremos o que maio-maduro-maio nos traz. para além da dor da memória, claro está. mas essa, como também e tão bem sabemos, nunca nos abandona. não se preocupem com o plural, é meramente majestático. ou seja: falo de mim. vocês, aí desse lado, estão out of target (mas não out of range - i'm afraid..).

sábado, 1 de maio de 2010

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estação de inverno, um ano depois, nos auscultadores. como foi possível? como fui possível? coisa linda, esta terra sem lei que não a do coração selvagem.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

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o meu nome também é arturo bandini. inesquecível livro, inesquecível personagem. ou de como certa literatura nos salva.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

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a ética é uma coisa difícil de explicar. tal como as constelações de valores.
por exemplo: jorge silva melo, há 25 anos 25 atrás, dirigiu uma película, daquelas que ninguém viu, chamada 'ninguém duas vezes'.
é só isto o que tenho a dizer, pelo menos hoje. é só isto e, no entanto, isto é tanto. mas tanto.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

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mais flores, não, obrigado - diz ele.
a condição * 


pelas avenidas
as pessoas sofrem;
elas sofrem a dormir, elas acordam
a sofrer;
até os edifícios sofrem,
as pontes
as flores sofrem
e não há salvação –
o sofrimento senta-se
o sofrimento paira
o sofrimento espera
o sofrimento é.

não perguntem por que há
bêbados
drogados
suicidas

a música é má
e o amor
e o argumento:

agora este lugar
enquanto escrevo isto

ou enquanto lês isto:
agora é o teu lugar.


charles bukowski


* versão de manuel a. domingos

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quarta-feira, 21 de abril de 2010

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breve epitáfio digital: here lies love.

aqui jaz o amor. aqui: mentiras & amor.

vai tudo dar ao mesmo. o que  é uma grande verdade.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

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nos discos, como de resto em tudo, há a balada do cafézinho - oh lonely me - e esse território que poucos foram capazes de visitar, inventar ou recuperar.. e voltar para contar. matt elliott é desses poucos. há uns anos que vem gravando discos impossíveis de serem escutados. ou quase. anda para aí um rapaz moderno a dizer que tem o sonho de gravar "um disco líquido". nada contra. já matt elliott não deve ter sonho nenhum, a não ser sobreviver à sua própria música - navios que se afundam, enquanto fantasmas dançam. e nós ali. e nós aqui. ai de nós, matt, ai de nós.

sábado, 17 de abril de 2010

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sim, tenho medo de laura marling. a palavra chave é qual? metonímia. isso.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

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'cléo de 5 à 7', de agnès varda. ou como se filmava paris em 1961 e o grande tema de sempre: o abismo, o medo, os mistérios insondáveis da alma humana. falamos da morte, falamos do amor - the only things in town. cléo é acompanhada, em tempo quase real, ao longo de uma, parafraseando um outro título de filme, numa outra língua, 'journey into fear'. não vos conto o porquê, nem o contexto. nada disso interessa muito. o que me interessa é esta mulher abstracta com dores tão concretas. cléo de 5 à 7. ou tu, entre ontem e hoje. ou eu, entre hoje e amanhã. ou nós, entre agora e sempre, por todos os séculos dos séculos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

domingo, 11 de abril de 2010

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'a inglesa e o duque', de eric rohmer

O Questionário de Proust & as respostas de joão blake

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Qual seu defeito mais deplorável?

A exigência. A impaciência. A intrasigência. Paciência.


Qual defeito mais deplora nos outros?

A intolerância. A brutalidade. A boçalidade. A falta de compaixão. A estupidez.


Qual seu estado mental mais comum?

A descrença desrazoável. A utopia feroz. A apatia disfarçada de energia (ou ao contrário).


Como gostaria de morrer?

Feliz por ter vivido. E deixando muitos outros, apesar de tristes, felizes por essa mesma razão. Agora a sério: depois de muita conversa com Deus e de ele me convencer absolutamente.


Se depois de morto tivessse que voltar à Terra, gostaria de voltar convertido em que coisa ou pessoa?

Custa-me responder. Talvez num livro que salvasse vidas, pessoas de si próprias. Livro é coisa?


Qual a sua maior extravagância?

Há quase 15 anos, ter deixado de fazer contas. Ser razoavelmente livre da ambição e preocupações mais materiais.


Em que ocasiões você mente?

Quando tento cativar os outros. Basicamente, o tempo todo, portanto.


Que pessoa viva te inspira mais desprezo?

Esqueci.


Que pessoa viva admira?

Minha avó materna. Todo o homem e mulher em que pressinto Humanidade.


Qual sua idéia de felicidade perfeita?

Impossível dizer. Mas mete mortos e vivos. Alguns homens e, palpita-me, muitas mulheres. Críptico. Então, vamos lá, outra vez. é de noite, alta madrugada, ela diz-me qualquer coisa. E eu digo, como no filme de Robert Bresson: "que estranho caminho tive que percorrer para chegar até ti.". Lá fora, daqui a um bocadinho, estão todas as pessoas importantes. Cheira a café, pão fresco, coisas simples. Acho que me entende.


Qual seu maior medo?

Descobrir que o nilismo era, afinal, justificado. Perder a minha humanidade. Perder os meus entes queridos - como toda a gente. A ordem não é bem esta.


Qual seu maior remorso?

Não ter sido capaz.


Qual a virtude mais valorizada socialmente?

O sucesso, em sentido amplo. Dá-me náuseas.


O que te desagrada mais em sua aparência?

Tudo o que me impede de ter aquela garota.


Quais são seus nomes favoritos?

Prefiro não responder. Toda a gente sabe. De homem: Homem.


Que talento desejaria ter?

Saber gerir as minhas emoções. Parar a dor de todo o mundo, num golpe de mágica. Saber escrever. Ser capaz de criar canções ou realizar filmes. Esquecia-me do mais tolo de todos: mudar o mundo.


O que te desagrada mais?

O egoísmo em que vivemos todos. A desatenção permanente de tantos. A falta de lucidez de muitos. A desonestidade de alguns. A violência psicológica. Vou repetir uma, lá de trás: a boçalidade.


Quando e onde você foi mais feliz?

Aos 15 anos de idade, talvez. Durante uma ou duas mãos-cheias de noites ("la dolce vita"). Sempre que alguém me diz: "gosto de ti".


Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Uma única coisa: gostaria que vivessem melhor a vida, mesmo sabendo que me desejariam provavelmente o mesmo.


Qual é seu maior objetivo?

Fazer tudo o que posso, em prol de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Que não esquecessem o meu nome. Objectivos impossíveis, está visto.


Qual sua posse mais valiosa?

O meu coração, apesar de tudo. E apesar do dono.


Qual a manifestação mais clara da miséria?

Os livros de História. E este sentimento amargo de ser possível mudar tanta coisa e nada acontecer. Falo de nós todos, em termos quase civilizacionais.


Onde desejaria viver?

Onde fosse feliz. Como isso é impossível, onde passasse mais tempo alegre. Como isso é difícil, onde puder ser livre para ser um bocadinho alegre e um nadinha feliz.


Qual seu passatempo favorito?

Ler e escrever. Como se vê, faço melhor o primeiro do que o segundo! E conversar, sempre.


Qual a qualidade que você mais aprecia em uma mulher?

Carácter e força? Bondade e ternura? Nunca me decidi. Combinar, por favor, com inteligência.


Qual a qualidade que você aprecia mais em um homem?

Carácter.


Qual seu herói de ficção favorito?

Ainda estou para descobrir. Um homem feito do melhor de todos os homens. Só pode ser ficção, não é? Alguns personagens de James Stewart, Henry Fonda, no cinema clássico. Na literatura, impossível responder. Curioso - enquanto penso, Corto Maltese atravessa-se à minha frente. Não será por acaso.


Quais são seus heróis da vida real?

Todos os que ousaram Ser. E que, para isso, arriscaram não estar mais. Para bom entendedor..

quarta-feira, 7 de abril de 2010

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fotograma: 'a infância de ivan', de andrei tarkovski

e se?
..


este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. exclui e substitui toda a anterior.” afirma o poeta joaquim manuel magalhães, a encerrar o seu recém publicado livro "um toldo vermelho".

..

e se?

..

este volume constitui a minha vida mais sob a pele até 2009, a que acrescento umas quantas, pequenas, manifestações de vida, ocorridas já no decorrer de 2010. exclui e substitui toda a anterior.” afirma o pateta joão blake, a encerrar o seu blog "the heart companion".

..

e se?

terça-feira, 6 de abril de 2010

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ruy belo

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fotograma de 'stalker', de andrei tarkovsky
íntima cicatriz

(ao sr. joaquim manuel magalhães)


lembrava-se,
como se à brutal finitude do tempo
correspondesse
a infinitude delicada da memória.

tomava por seus os céus da catalunha,
emprestadas testemunhas
da sua história trágico-marítima
mais íntima.

a noite caía na temperatura, gelada agora.
trombetas mudas
que ninguém esperava, que ninguém escutava,
um som-silêncio universal.

'a arte de perder não é difícil de dominar',
e tudo isso lhe passava agora à frente,
visão futura indesejada
fazendo-se passar por uma coisa outra.

obscenidades.
como este poema terrível:
escrito no futuro,
mas vivo no presente mais doloroso,
que é sempre o do tempo-mal-passado.

como as
legiões romanas de outrora,
e as senhoras de meia idade agora,
as palavras são enviadas para a morte,

estrelas nos céus de amanhã,
indiferentes à triste sina
ou só má-sorte

de quem cá ficou.

dói o céu que ontem foi derrotado,
batalha sangrenta, metafísica cruel.

as palavras, outra vez:
assassinos a soldo do monstro
a que chamam devir.

tudo o resto:
um rosto amachucado,
um homem de rastos,
o cadáver do futuro decomposto,
amargo travo de açúcar que é já fel.

resta-nos rir.


nós, os que vamos morrer, saudamos-te, imperatriz.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

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foto: andrei tarkovski

cicatriz

os que vão morrer saúdam-te, césar,
lembrava-se ele dos livros de história,
como se à brutal finitude do tempo
correspondesse ainda e sempre
a finitude mais delicada do verbo.

nesses dias de bus touristic
tomava por seus os céus da catalunha,
improváveis testemunhas emprestadas
da sua história trágico-marítima
íntima (e, contudo, tão universal.)

a noite caía com suavidade, em tudo
menos na temperatura, gelada agora.
trombetas mudas anunciavam o apocalipse
que ninguém esperava, e que ninguém escutava.
som-silêncio universal (e, contudo, tão íntimo.)

a arte de perder não é difícil de dominar,
dizia uma célebre senhora, boa poeta,
e tudo isso lhe passava à frente,
uma visão futura indesejada
fazendo-se passar por outra coisa.

quando lhe falam de obscenidades,
recorda sempre este poema -
apesar de ter sido escrito no futuro,
é no presente mais vivo e doloroso
que usa e abusa do tempo mal-passado.

como as legiões romanas de outrora,
como as senhoras de meia idade do canadá de agora,
as palavras são enviadas para a morte,
estrelas que pontuarão os céus de amanhã,
indiferentes à sua triste sina ou só má-sorte.

hoje, dói-lhe o céu que ontem foi derrotado,
em batalha sangrenta, pela metafísica mais cruel.
as palavras são assassinos a soldo do monstro
que se esconde no inferno a que chamam devir.
tudo o resto é um rosto amachucado,
cheiro a cadáver de futuro decomposto,
amargo travo de açúcar que vai ser fel.

resta-nos rir.
resta-nos ir.

domingo, 4 de abril de 2010

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'com estes fragmentos escorei
as minhas ruínas'

t.s. eliot


na ilha dos amores, camões escutava o eco de tudo o que poderia ter sido.
terrível cousa esta!, leitores futuros meus,
de extirpar em vida a dor do que jaz morto em nós
mas algures transborda de viçosa vida.

fazer o luto de flores vivas,
enquanto carreamos esse tráfego nocturno
de animais mortos
que ainda caminham.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

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querida júlia,

porquê? mera ironia cósmica?
porquê tanta dor? acaso abstracto? culpa concreta?
porquê?

nunca saberei - eu sei. mas tentei. isso sei.

not much, anyway.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

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páscoa. 5 anos. 4 anos. 3 anos. 2 anos. 1 ano.

epicentro subterrâneo, mar de azeite, escondendo bonança e tempestade. às vezes, mais do que uma vez, escondendo uma coisa e outra.

1 ano. 2 anos. 3 anos. 4 anos. 5 anos. páscoa.

quarta-feira, 31 de março de 2010

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all these pictures of you killing me inside.

terça-feira, 30 de março de 2010

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somebody picks up that cigarette for a while
someone picks up that cigarette from the middle of the bus stop
someone talks to somebody else, but there's nobody there
a woman curses me in the supermarket
a gypsy lady wants to tell me the name of my love
old man, say something to me about blonde russian babes
a cigarette, a big piece of bread fall on the car stopped on the walking stripes
somebody looks amazed
someone talks to somebody else, but there's nobody there
old man, say something to me about blonde russian babes
a cigarette, a big piece of bread fall on the car stopped on the walking stripes
somebody looks amazed
somebody looks amazed

micro audio waves

segunda-feira, 29 de março de 2010

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'a escrita que (..) oscila sempre entre o espanto do mundo e os seus abismos pessoais'

celso martins, no caderno actual, jornal expresso, sábado passado, a propósito da exposição dedicada às fotografias de annemarie schwarzenbach e intitulada 'auto-retratos do mundo', patente no CCB.

p.s. mas entendo quem eventualmente possa ter pensado.. outra coisa.

sexta-feira, 26 de março de 2010

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..estás agora com um livro não identificado na mão, é de noite, o sótão da casa é o mesmo da casa dos teus avós em lafões, há muitos anos. estás sózinho e acompanhado, não há critério que te ajude a perceber. lês qualquer coisa. sabes que algures a figura está perto, como se estivesse ali e não estivesse ali. adormeces, as coisas mudam de lugar, acordas. vês que a figura esteve ali - sentes ainda a sua presença de uma forma que não é humanamente articulável, a não ser que inventasses uma nova linguagem, mas não tens esse dom, és ainda e só e para sempre humano. procuras o livro, onde está o teu precioso livro, procuras. percebes que a figura to terá tirado, durante o sono. que o leu, dobrou nos cantos, usou e abusou da semiótica que todo o livro traz consigo, aos ombros, a tira-colo, de todas as formas que possas imaginar. algures, com a sua letra minuciosa, há riscos e rabiscos, textos crípticos, numa escrita tão pequena que os teus olhos não conseguem ler, acompanhar, ficas-te pelos princípios de cada frase. repulsa e amor, deve ser uma coisa assim. por um objecto que assume todas as propriedades concentradas de uma figura humana. de súbito, estancas. e percebes, em determinada página, uma frase legível - algo que é para ti, só pode ser para ti. a frase diz-te:
"quero um amor fresco, todos os dias"

e entendes, finalmente, porquê - o porquê de certas coisas.

dias antes, em registo acordado, leras num mail que os nativos do teu signo dão muita importância (ou será que o que leste é que aquilo de que vais falar a seguir tem mesmo muita importância?) aos sonhos. aqui está, a prova provada de que assim é.

o outro tinha um sonho.

eu tive um sonho.

mas, sabes uma coisa, figura-livro-esfinge? trocava o sonho por uma vida.

quinta-feira, 25 de março de 2010

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foto: breno corrêa filho


era de inverno, em vila real. a neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
dentro da confeitaria, as luvas de cabedal

no tampo do vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesa indiferentes.
e querias olhar para mais dentro de mim.
os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.

calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
mas sempre que tombar neve em vila real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.

joaquim manuel magalhães

quarta-feira, 24 de março de 2010

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há 3 anos, estava para mudar a minha vida. morreu-me uma pessoa. e morreste-me.

há 2 anos, estava para mudar a minha vida. e deixei-nos morrer.

há 1 ano, estava para mudar a minha vida. e morreste-me.

hoje, estou quase a mudar a minha vida. e morre-me uma pessoa.

as mortes metafóricas são que são - um grito vindo das entranhas. e nada mais.

as outras mortes, as reais, são o que são - "um monumento, ou cenotáfio, ao nada". e nada mais.

(..)

raios partam isto tudo.

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trompe l'oeil (trompe le coeur)

os fracassos todos de uma existência,
quando cuidadosamente empilhados,
observada uma certa coerência,
parecem uma espécie de pirâmide
monumental — ainda que truncada,

talvez — desde que olhados à distância
no momento preciso em que os atinge
o sol do entardecer, formando um ângulo
cujo valor exato se obtém
com base no... mas não, é mais esfinge

que pirâmide, sim, pensando bem —
quer dizer, uma esfinge estilizada,
sugerida apenas, como convém
a um monumento, ou cenotáfio, ao nada.

paulo henriques britto

terça-feira, 23 de março de 2010

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embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em cafarnaum.

paulo henriques britto

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há muitos anos, no tempo em que ainda havia tempo, brian eno e david byrne juntaram-se para gravar um disco que passou à história com o título de 'my life in the bush of ghosts'.
não poderiam adivinhar que, muitos anos depois, quando o tempo já não existe, esse viria a ser um título estranhamente perfeito para uma espécie de biografia in progress.

coisas da semiótica contemporânea.

segunda-feira, 22 de março de 2010

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querida júlia,

this is a postcard from me to the cosmos:

quarta-feira, 17 de março de 2010

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sophie calle's starting point for her exhibition 'take care of yourself'.


i will.

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the queen is dead, boys.

terça-feira, 16 de março de 2010

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she makes love like a woman, yes she does
and she aches just like a woman
but she brakes just like a little girl

bob dylan

he makes love like a man, yes he does
and he aches just like a man
but he brakes just like a little poor boy

segunda-feira, 15 de março de 2010

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quatorze para o meio-dia

o olhar, grande oblíquo,
descobre num corpo
oferto outro corpo,
cavo, que diz não,

e o que esse, seu duplo,
dessangra, ressuda,
à ponta, ao calor
do olhar-aguilhão

sublima um terceiro
que é todo espinhaço
de luz (como são

as horas de perda,
os paramos, certas
manhãs de verão.)


carlito azevedo

[et quod demonstratum]

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(..)
o poema não deu certo.
a vida não deu em nada.
não há deus. não há esperança.
amanhã deve dar praia.

paulo henriques britto

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olhos cinza

quando uma noite as mãos lhe roçaram a pele,
ainda se guardava para aquele
que se fora num dia incerto,
um dia como alguns na vida
que, em vez de início, são o incrédulo final
com o nome vulgar de desespero e, menos
comum, de solitários olhos cinza
tão fielmente tristes,
como se ele, voltando do passado,
pudesse estar ali a vê-la abraçar-se a outro,
o corpo manequim de gelo elanguescendo aos poucos.

nuno dempster

domingo, 14 de março de 2010

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no canto do bolso o livrinho vermelho gritando por london
no bolso do canto o livrinho branco calando macau
e tu, águia real outrora, rondando a presa da circunstância,
estruturando o ângulo pelo qual alguma coisa mudará para sempre.
a música da multidão que é sábado ciranda em teu redor
sem te poder, contudo, ouvir - a paga que te dá, bem merecida, sentes.
does not suffice pode querer dizer tanta coisa, tanta coisa.
por exemplo: que desistes da presa de sábado à tarde, da ideia,
do conceito, equação esdrúxula, binómio aplicado ao que interessa.
jogas na antecipação, como essa gente que inunda o metro de londres
e as ruas da macau outrora um bocadinho também tuas. essa gente
que carrega aos ombros todos os corações de todos os sábados,
e lembrar o rui e o seu memento por diana - tão morta agora
quanto o nosso inferno amor. vícios de linguagem, pode-se aqui ver,
que a metafísica pura anda arredia há muito, sabemos tão bem.
does not suffice o frenesim agudo que te estremece, nem os olhos
da menina da caixa em registo mecânico de simpatia profissional.
e no entanto seus olhos são lindos e, como em london london, pensas
em quem acolherá o seu corpo decerto cálido, pujante e pungente,
como todos os corpos jovens que te passam rectas oblíquas (tangentes).
deixas em paz e sossego o que remédio não tem, abandonas a centelha
sentada num banco de jardim, à porta do centro comercial sem spleen
possível, materialismo e nada mais, para diletantes sem ocupação.
o teu coração - ou será outra coisa? - dispara em compasso estugado,
coisa diversa do movimento certeiro que outrora a águia que eras
lhe dedicaria com arte abstracta e ciência mais do que técnica.
agora, partes dentro de ti, segues. stop stop. macau e london,
lisboa é isso também, cidades dentro de uma cidade desmultiplicada.
um dia, quando estiveres dentro de mim, naquele momento estelar,
em que estarei dentro de ti, desferirás teu tiro febril e fatal,
pequena sereia da caixa de supermercado - antes que faças, portanto,
do cavalo de tróia uma estratégia infame e deja vu letal, arrumo-te eu
a um canto, no mesmo banco que ficou lá atrás, nas linhas que
falam desta lisboa, simulando londres, london, macau. pois é,
donzela, esta vida está, como dizer-te, esta vida está está está
mal - em português sem acordo ortográfico que a salve etc e tal.
estamos nós, as cidades e a semântica, a falta de ar e de quântica
- é como se
em vez de natal nos servissem um arremedo estúpido de carnaval.
e nós assobiamos. não achamos bem, convenhamos. mas também 
não achamos que esteja como está: m-a-l, soletrando portanto, 
dá qualquer coisa assim: estamos mal. mesmo mal.

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does not suffice.

sexta-feira, 12 de março de 2010

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tu que olhas para mim,
eu que olho para ti,
o instante em que nos cruzamos,
contra as leis do tempo e da probabilidade,
este rectângulo digital,
o oráculo que resta em tempo de deuses descendentes.
um imenso adeus, uma e outra e outra e uma vez.
e, contudo,
esse olhar teu em mim
e este olhar meu em ti,
faísca frenética,
metafísica amorosa ao final da tarde que finda,
um amor fundo que se afunda
e uma constelação que se apaga.
nenhuma beleza se mede
por possibilidades ou lucros imediatos
- antes pela louca certeza
de que somos absolutamente possíveis,
como este nosso amor
entre quem morreu há décadas, tu,
e quem vive quase morto, este metafórico e sulfúrico eu,
que ainda sou.

quinta-feira, 11 de março de 2010

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[surrupiado algures:]


ai, margarida,
se eu te desse a minha vida,
que farias tu com ela?
— tirava os brincos do prego,
casava c'um homem cego
e ia morar para a Estrela.

mas, margarida,
se eu te desse a minha vida,
que diria tua mãe?
— (ela conhece-me a fundo.)
que há muito parvo no mundo,
e que eras parvo também.

e, margarida,
se eu te desse a minha vida
no sentido de morrer?
— eu iria ao teu enterro,
mas achava que era um erro
querer amar sem viver.

mas, margarida,
se este dar-te a minha vida
não fosse senão poesia?
— então, filho, nada feito.
fica tudo sem efeito.
nesta casa não se fia.

comunicado pelo engenheiro naval

sr. álvaro de campos em estado
de inconsciência
alcoólica.
1-10-1927

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não podendo ser hoje. nunca pode, não é? pois é.

quarta-feira, 10 de março de 2010

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diz, sobre o livro, que 'its subjects are love, loss, and memory.'
mas há mais alguma coisa?

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nicholas currie (also known as momus) é um dos poetas malditos da nossa modernidade.

nem moral, nem imoral - um dos poucos criadores capazes de discorrer sobre a amoralidade. ainda por cima, com brilhantismo estético.

da elevada estética amoral, portanto. imoral.

segunda-feira, 8 de março de 2010

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um dia eu, que passei metade da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga de um monomotor ligeiro,
e subirei alto, bem alto, até desaparecer para além da última nuvem.
os jornais dirão: cansado da terra, o poeta fugiu para o céu.
e não voltarei de facto.
serei lembrado instantes por família, meus amigos,
alguma mulher que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores.
então meu nome começará aparecendo nas selectas
e, para tédio de mestres e meninos,
far-se-ão edições escolares de meus livros.
nessa altura estarei esquecido.

rui knopfli

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